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Pós-operatório de Neurocirurgia

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O principal objetivo do cuidado pós-operatório de pacientes submetidos a neurocirurgia é a prevenção e a detecção precoce de complicações neurológicas.

Os procedimentos neurocirúrgicos comumente necessitam de acompanhamento pós-operatório em unidade de terapia intensiva (UTI) por se tratarem de procedimentos complexos e com grandes chance de complicação.

É fundamental a monitorização neurológica, hemodinâmica, metabólica e respiratória dos pacientes.

  • Pacientes submetidos à craniotomia (eletiva) devem permanecer por pelo menos 12 horas na UTI;
  • Pacientes com tumor de base de crânio, infratentoriais e/ou com edema cerebral extenso devem permanecer no mínimo por 24 a 48 horas sob vigilância;
  • Pacientes com trauma cranioencefálico (TCE) e contusão hemorrágica extensa, hematoma extradural, pneumoencéfalo, e/ou fístula liquórica possuem indicação de UTI, independentemente do Glasgow;
  • Pacientes com Glasgow ≤ 8 têm indicação de intubação para proteção de via aérea.

Neurocheck (admissão na UTI): O acompanhamento seriado do paciente, principalmente nas primeiras 24 horas é fundamental para garantir o sucesso do pós-operatório.

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Medidas Gerais

  • Acesso venoso calibroso (1 a 2);
  • Elevação da cabeceira (30°), com cabeça em posição neutra;
  • Suporte nutricional precoce (enteral), porém sem necessidade de atingir rapidamente a meta calórica;
  • Se suspeita de fratura de base de crânio, não passar SNE e/ou SNG;
  • Controle glicêmico (alvo de glicemia: 140-180 mg/dL);
  • Controle da dor;
  • Evitar febre ou hipertermia;
  • Reavaliação contínua ( neurocheck );
  • Mudanças de decúbito e colchão pneumático.

Suporte Cardiovascular

  • Monitorizar a pressão arterial, preferencialmente de maneira invasiva, visando faixa de normalidade (PAM = 70 a 130 mmHg);
  • Tão logo a estabilidade hemodinâmica seja garantida, é desejável retirar acessos venosos profundos;
  • Em pacientes com hipertensão intracraniana, manter pressão de perfusão cerebral (PPC = PAM – PIC) entre 60-70 mmHg. Em pacientes sem monitorização de PIC, manter PAM > 80-90 mmHg;
  • Monitorização cardíaca contínua para identificar precocemente arritmias;
  • Acompanhar débito urinário e balanço hídrico para controle da volemia e eletrólitos, especialmente o sódio;
  • Considerar hemotransfusão para manter Hb > 7- 9 e SatO 2 > 90-95%.

Suporte Ventilatório

  • Via aérea avançada, se necessário;
  • Gasometria arterial a cada 12-24 horas;
  • Monitorização com oximetria de pulso e capnografia (principalmente se hipertensão intracraniana);
  • Radiografia de tórax de admissão e em caso de piora respiratória;
  • Manter SpO 2 > 90-94% e PaCO 2 entre 40-45 mmHg.

Avaliação Complementar

  • Hemograma completo;
  • Eletrólitos, ureia, creatinina, glicemia e gasometria arterial;
  • Se houver desequilíbrio hidroeletrolítico, solicitar exames em menor intervalo;
  • Conforme necessário: radiografia de tórax e eletrocardiograma.

Monitorização da Pressão Intracraniana

    Indicações:
  • Suspeita de HIC (mais comum); isquemia cerebral grave; meningite grave; pós-operatório neurocirúrgico; encefalite; tratamento de hidrocefalia.
    Interpretação:
  • Pressão intracraniana (PIC): normal < 10 mmHg:
    • Iniciar terapêutica: se PIC > 22 mmHg por mais de 5 minutos.
  • Pressão de perfusão cerebral (PPC): PPC = PAM - PIC;
  • Valores > 60-70 mmHg indicam uma adequada perfusão cerebral.
    Fatores que elevam a PIC:
  • Hipercapnia;
  • Hipóxia;
  • Hipotensão (edema citotóxico) ou hipertensão (edema vasogênico);
  • Hiponatremia;
  • Cabeceira abaixada;
  • Dor ou posição no leito;
  • Assincronia ventilatória na ventilação mecânica;
  • Secreção em vias aéreas.
    Vantagens da monitorização invasiva da PIC:
  • Detecta precocemente possíveis elevações;
  • Limita o uso de tratamentos desnecessários para redução da PIC;
  • Permite drenagem liquórica (se cateter em posição intraventricular);
  • Auxilia na determinação de prognóstico (piores desfechos se elevação persistente);
  • Monitorização intraventricular: é a ideal, pois permite a drenagem liquórica. Quando não possível (ex.: compressão ventricular) a posição intraparenquimatosa passa a ser a de escolha. Complicações: infecção, hemorragia e obstrução.
Posição Drenagem liquor Precisão Recalibração
Ventricular Sim +++ Sim
Parênquima Não ++ (primeiros 3-4 dias) Não
Subaracnoide Não + Sim
Subdural Não + Não

Hidratação Venosa

  • Preferir SF 0,9% e evitar soluções hipotônicas (SG 5%);
  • Evitar hipovolemia.

Analgesia

  • Deve promover controle adequado de dor, evitando o aumento da PIC;
  • A maioria dos procedimentos neurocirúrgicos cursa com dor de moderada a forte intensidade dentro de 48 horas de pós-operatório;
  • Opioides: de preferência opioides fortes em dose baixa (ex.: Morfina 2 mg). Opioides fracos como Tramadol possuem dose teto e maior índice de efeitos colaterais (ex.: náuseas);
  • Analgésicos (Dipirona, Paracetamol) devem ser administrados de forma regular;
  • Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) devem ser evitados no pós-operatório imediato após cirurgia intracraniana por conta de seu efeito antiplaquetário. Seu uso pode ser iniciado após 12-24 horas conforme orientação da equipe neurocirúrgica;
  • Ainda são possíveis bloqueios anestésicos do escalpo;
  • Medicamentos adjuvantes podem ser utilizados para controle da dor neuropática, tais como Gabapentina, Pregabalina, Amitriptilina, Clonidina e Cetamina.

Náuseas e Vômitos

  • Comuns no período pós-operatório, principalmente em cirurgias infratentoriais;
  • Prescrever profilaxia no intraoperatório e medicamentos regulares no pós-operatório;
  • Ex.: Ondansetrona, Dexametasona, Metoclopramida.

Antibioticoprofilaxia

  • Manutenção no período pós-operatório por até 24 horas a 48 horas (se implante de material sintético);
  • Exceção: cirurgia para inserção de eletrodos intracranianos para epilepsia ou estimulação cerebral profunda para distúrbios de movimento (risco maior de infecção grave);
  • Discutir com a equipe de CCIH para definir o período de profilaxia.

Corticoides

  • Utilizado na redução de edema cerebral em pacientes com tumor cerebral, para reduzir o efeito de massa;
  • Dexametasona 10 mg bólus, seguido de 4 mg EV de 6/6 horas. Em geral, iniciar 48 horas antes da cirurgia, manter no pós-operatório e reduzir a dose gradualmente;
  • Reposição de corticoides pode ser indicada em pacientes submetidos à cirurgia hipofisária.

Anticonvulsivantes

  • As crises convulsivas ocorrem comumente no pós-operatório, sendo relacionadas a pior prognóstico e agravamento do quadro;
  • Profilaxia de crise convulsiva não deve ser realizada em todos os pacientes. Avaliar indicação com equipe da neurocirurgia;
  • Fenitoína:
    • Dose de ataque de 20 mg/kg EV, em 60 minutos (não exceder 50 mg/minuto);
    • Manutenção: 100 mg EV/SNE de 8/8 horas. Acompanhar nível sérico, corrigido pela albumina sérica.

Sedação

  • Midazolam (50 mg/10 mL) 0.05 -0.4 mg/kg/hora em BIC;
  • Propofol (10 mg/mL) 5-50 mcg/kg/minuto em BIC;
  • Fentanil (0,05 mg/mL) 1-2 microgramas/kg/hora em BIC;
  • Avaliar retirar sedação se não houver hipertensão intracraniana;
  • Se agitação importante, com risco de retirada inadvertida de dispositivos, manter sedação intravenosa e otimizar antipsicóticos enterais.

Agitação Psicomotora

  • Haloperidol 5-10 mg EV/IM. Se necessário, repetir com intervalo de 15-30 minutos;
  • Clorpromazina (5 mg/mL) 25-100 mg/dose 1-4x/dia;
  • Dexmedetomidina (200 mg/mL):
    • Manutenção: 0,2-0,7 micrograma/kg/hora;
    • Diluição: Dexmedetomidina 2 mL + SF 0,9% 48 mL (concentração 4 microgramas/mL).
  • Lorazepam (2 mg/cp) 1-10 mg/dia;
  • Quetiapina (25 mg/cp) 50-450 mg/dia;
  • Risperidona (1 mg/cp) 2-6 mg/dia.

Controle Glicêmico

  • Alvo de glicemia 140-180 mg/dl;

Profilaxias

  • Úlcera de estresse: Omeprazol 40 mg EV 1x/dia nas primeiras 48 horas e transicionar para via enteral se manter indicação;
  • TVP e TEP: A avaliação individidualizada de cada caso (ex: tipo da cirurgia, tamanho da abordagem). Pode ser iniciada imediatamente com compressor pneumático. Porém, aguardar ao menos 24 a 48 horas e considerar tomografia de crânio de controle antes de iniciar profilaxia farmacológica:
    • Enoxaparina 40 mg SC 1x/dia;
    • Fondaparinux (0,5 mL) 2,5 mg SC 1x/dia;
    • Heparina não fracionada 5000 unidades SC 12/12 horas.

Manejo de Drenos

  • Associados a alto risco de meningite e ventriculite, sendo a antissepsia no seu manejo essencial;
  • Drenos devem ser clampeados durante transporte do paciente;
  • Deve-se anotar o débito horário de drenos ventriculares ou lombares;
  • Obstrução pode levar à hidrocefalia, rinorréia e vazamento de LCR pela ferida operatória. Enquanto isso, a drenagem excessiva ocasiona: colapso ventricular, pneumoencéfalo, hematoma subdural, e cefaleia.

Crises Convulsivas

  • Alta incidência;
  • Tratamento e profilaxia com anticonvulsivantes, como descrito;
  • A profilaxia deve ser por 3-7 dias nos casos com indicação. Nos casos de crise convulsiva, o desmame de anticonvulsivantes deve ser feito ambulatorialmente.

Hipertensão Intracraniana

Está relacionada ao desenvolvimento de edema cerebral no pós-operatório imediato. Há um risco maior nas primeiras 96 horas. As medidas iniciais dependem da gravidade do quadro.

    Intervir se PIC > 22 mmHg sustentada (> 5 minutos):
  • Manter pCO 2 entre 35-34 mmHg;
  • Osmoterapia (Manitol 20% ou Salina hipertônica): Manitol 20% 1,5-2 g/kg (ataque em 30-60 minutos) e Salina hipertônica 20% 0,5ml/kg infundir em 10 minutos em acesso venoso central (alvo de Na 150);
  • Drenagem liquórica com DVE;
  • Induzir sedação profunda (RASS -5):
    • Propofol (10 mg/mL) 5-50 microgramas/kg/minuto em BIC;
    • Midazolam (50 mg/10 mL) 0.05 -0.4 mg/kg/hora em BIC.;
    • Fentanil (0,05 mg/mL) 1-2 microgramas/kg/hora em BIC;

Redução do Nível de Consciência

  • Pode estar relacionada a sangramentos intracranianos, edema cerebral, acidentes vasculares encefálicos (AVE), pneumoencéfalo e hidrocefalia;
  • Em caso de rebaixamento do nível de consciência, realizar TC de controle para avaliar complicações.

Edema Cerebral

  • Fatores de risco incluem: ressecção tumoral, retração cerebral prolongada, reabordagens, tempo cirúrgico > 6 horas;
  • Estados de hiperperfusão aceleram o desenvolvimento de edema cerebral;
  • Normalmente tratado com Dexametasona intravenosa se edema cerebral vasogênico;
  • Pode ser exacerbado com hipervolemia ou infusão de soluções intravenosas hipotônicas.

Pneumoencéfalo

  • A principal manifestação é a cefaleia associada a rebaixamento do nível de consciência (confusão ou letargia);
  • Maior risco em cirurgias intracranianas particularmente craniotomia da fossa posterior, cirurgia transesfenoidal, evacuação de hematoma subdural crônico;
  • Diagnóstico pela tomografia de crânio;
  • Abordagem sintomática, sem tratamento específico.

Hidrocefalia

  • Alto risco em cirurgias da fossa posterior ou quando há sangue obstruindo o sistema ventricular;
  • Pode ocorrer na retirada de derivação ventricular externa;
  • Em casos de alto risco de hidrocefalia pós-operatória, um dreno ventricular externo pode ser colocado ainda durante o procedimento cirúrgico.

Fístula Liquórica

  • Complicação comum de cirurgias transesfenoidais;
  • Predispõe à hipotensão intracraniana e meningite;
  • Pode ser necessária reabordagem cirúrgica.

Disfunção de Pares Cranianos e Paralisia Bulbar

  • Disfunção bulbar pode decorrer de cirurgias da fossa posterior e da base do crânio ou pré-existir em pacientes com distúrbios neuromusculares;
  • Monitorar a função principalmente dos pares: VII, VIII, IX, X, XII;
  • Eventualmente intubação orotraqueal pode ser necessária no manejo de pacientes com disfunção bulbar pelo risco de pneumonia aspirativa, bem como disautonomia e alteração no controle dos centros vitais.

Arritmias Cardíacas

  • Relacionadas geralmente a distúrbios hidroeletrolíticos (cálcio, magnésio e potássio) e disautonomia;
  • Realizar correção dos distúrbios e monitorização cardíaca.

Pneumonia

  • Complicação comum devido a: exposição ao ambiente hospitalar, perda do mecanismo de proteção de vias aéreas à ventilação mecânica;
  • Discutir, com a comissão de infecção hospitalar, o antimicrobiano mais apropriado aos germes do hospital.

Distúrbios Hidroeletrolíticos

    A) Hiponatremia:
  • Relativamente comum no pós-operatório neurocirúrgico e pode, também, estar relacionada à SIADH;
  • De modo geral, evitar soluções hipotônicas; se necessário, utilizar Salina 3% para reposição de sódio, com limite seguro de 6-8 mEq/dia;
  • Se indicado: restrição hídrica + diurético de alça (Furosemida 0,5-1 mg/kg/dia). Evitar restrição hídrica no paciente com hemorragia subaracnóide.
    B) Hipernatremia:
  • Pode ocorrer diabetes insipidus relacionado à lesão de base de crânio;
  • DDAVP intranasal (0,1 mg/mL: 10 microgramas/spray) 10-40 microgramas/dia dividido 2-3x/dia;
  • Reposição intravenosa com SG 5% nos pacientes com diabetes insipidus central de forma a manter o balanço hidrico neutro.

Potenciais Complicações Conforme o Procedimento

    Craniotomia/ressecção tumoral:
  • Edema cerebral, hemorragia intracraniana, convulsões, fístula liquórica, infecção.
    Cirurgia da fossa posterior:
  • Hemorragia intracraniana, bradicardia, apneia, hidrocefalia, disfunção bulbar.
    Biópsia/trepanação:
  • Hemorragia intracraniana, AVC, edema, convulsões.
    Cirurgia transesfenoidal:
  • Hemorragia intracraniana, diabetes insipidus, perda visual, fístula liquórica, epistaxe.
    Clipagem de aneurisma:
  • Hemorragia, AVE, edema cerebral, vasoespasmo, hidrocefalia.
    Derivação ventriculoperitoneal:
  • Hemorragia intracraniana, edema, pneumotórax, perfuração intestinal, obstrução do shunt , infecção.
    Procedimentos radiológicos:
  • AVC embólico, hemorragia, convulsões, vasoespasmo, dissecção arterial, hematoma inguinal, hematoma retroperitoneal, isquemia de membro inferior, pseudoaneurisma femoral.
    Autorias principais:
  • Caio C. B. de Castro (Cirurgia Geral e Torácica);
  • Bernardo Schwartz E. Mello (Cirurgia Geral e Medicina Intensiva).

Revisão: Yuri Albuquerque (Medicina Intensiva).

    Equipe adjunta:
  • Rafael Arruda Alves (Emergencista com especialidade em Emergência Pediátrica e Medicina Intensiva);
  • Vinicius Zofoli (Terapia Intensiva);
  • Aluisio Reis (Cirurgia Torácica);
  • Angelo Luís Tonon (Cirurgia Geral);
  • Diogo Moreira Perlingeiro (Urologia e Cirurgia Geral);
  • Felipe Victer (Cirurgia Geral);
  • Jader David Ricco (Cirurgia Oncológica);
  • Leonardo Dinis de Albuquerque (Cirurgia Geral);
  • Mariane Savio (Coloproctologia);
  • Matheus Meira (Cirurgia do Aparelho Digestivo e Videolaparoscopia);
  • Matheus Furtado (Cirurgia Cardiovascular);
  • Vanessa Nascimento (Cirurgia Pediátrica Geral pelo IFF/FIOCRUZ e Oncológica pelo INCA).

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