' Terapia Nutrológica Parenteral no Adulto - Prescrição
Conteúdo copiado com sucesso!

Terapia Nutrológica Parenteral no Adulto

Voltar

Definição: A nutrição parenteral (NP) é a administração, por via endovenosa, de uma solução contendo aminoácidos, glicose, lipídios, eletrólitos, micronutrientes e vitaminas para prover nutrientes a pacientes que têm contraindicações a outras vias de nutrição. A terapia nutrológica parenteral é a forma mais invasiva de nutrir um paciente, pois há riscos associados à colocação do cateter venoso central, como infecção e trombose; portanto, sua indicação deve ser muito bem ponderada.

Deve-se usar a via enteral sempre que o trato gastrintestinal for funcional, pois ela está associada a uma série de vantagens. A NP é reservada para casos em que a via enteral é contraindicada ou insuficiente para a obtenção das metas nutricionais. Em geral, considera-se iniciar NP quando não existe previsão de começo da dieta enteral, após 7 dias da internação. Ainda assim, mesmo nos pacientes impossibilitados de utilizar a via enteral, deve-se iniciar a NP somente após alcançada estabilidade clínica/hemodinâmica iniciais.

    Principais indicações (respeitando as observações anteriores) :
  • Obstrução mecânica do trato gastrintestinal;
  • Peritonite não controlada;
  • Isquemia intestinal;
  • Íleo prolongado;
  • Fístulas intestinais de alto débito;
  • Síndrome do intestino curto;
  • Doenças inflamatórias intestinais graves ativas.

Devemos ficar atentos às contraindicações à NP, já que é um método invasivo com maior risco de infecções.

    Contraindicações:
  • Trato gastrintestinal funcionante;
  • Pacientes alérgicos a qualquer componente da dieta parenteral;
  • Pacientes hemodinamicamente instáveis;
  • Hipertrigliceridemia grave ( > 400 mg/dL);
  • Distúrbios hidreletrolíticos graves.
    Complicações:
  • Metabólicas: hiperglicemia, síndrome de realimentação (hipofosfatemia, hipocalemia, hipomagnesemia), hipertrigliceridemia;
  • Doença hepática associada à NP: elevação das enzimas hepáticas e colestase;
  • Infecções relacionadas ao cateter;
  • Complicações relacionadas ao cateter: trombose, pneumotórax, hemotórax.

O paciente que irá receber NP, deve ser submetido à a valiação nutricional para determinação de suas necessidades calórica e proteica, além da detecção de alterações metabólicas provocadas pela doença de base, pela condição clínica e pelo uso de medicações.

Além disso, alguns exames laboratoriais devem ser realizados para monitoramento das complicações associadas à NP.

    Dados antropométricos: [cms-watermark]
  • Peso e estatura;
  • Avaliar alterações recentes de peso.
    Avaliação laboratorial e frequência:
  • Eletrólitos (sódio, potássio, cálcio, magnésio, fósforo, ureia, creatinina, glicemia): diariamente até a estabilização; depois disso, 2 vezes/semana;
  • Marcadores de função ou lesão hepatocelular (fosfatase alcalina, gamaglutamiltransferase, bilirrubinas, aspartato aminotransferase, alanina aminotransferase, tempo de protrombina): 1 vez/semana;
  • Triglicerídios: antes do início da nutrição parenteral, 1 vez/semana, até estabilização; depois disso, 2 vezes/mês.

Nutrição Parenteral Periférica

A NP periférica é realizada por meio de acesso venoso periférico. Ela é indicada para pacientes que necessitem de aporte nutricional por curto período, até 14 dias, com incapacidade de acesso venoso central e com necessidade calórica baixa (< 1.800 kcal/dia) [cms-watermark] . [cms-watermark] [cms-watermark]

Sua osmolaridade deve ser baixa, não ultrapassando 900 mOsm/L, devido ao risco de tromboflebite. Ela pode ser usada em conjunto com a nutrição enteral, com objetivo suplementar (denominada NP suplementar [NPS] ou NP total [NPT]). [cms-watermark]

A NP periférica é mais simples, barata e apresenta um menor risco de complicações como infecções e trombose. [cms-watermark]

[cms-watermark] O cateter de NP deve ser trocado a cada 48 a 72 horas, pelo risco de infecção. Deve-se usado um acesso venoso periférico calibroso e proximal. [cms-watermark]

Existem formulações prontas para NP periférica, constituídas de glicose, aminoácidos, lipídios e eletrólitos. Apesar disso, não contêm vitaminas, e as quantidades de eletrólitos são pequenas; portanto; essas substâncias devem ser administradas separadamente.

Nutrição Parenteral Central

A NP central é indicada para tratamentos superiores a 14 dias, em geral, pelas veias subclávia ou jugular inter [cms-waterma na. [cms-watermark]

Usualmente ela é utilizada como a única forma de alimentação (NPT). A osmolaridade das soluções pode ser maior, superior a 900 mOsm/L [cms-watermark] , variando de 1.500 a 2.800 mOsm/L.

Deve-se ter o cuidado de usar um cateter com mais de um lúmen, pois a NP deve ser administrada em um lúmen exclusivo. Além disso, a manipulação do cateter deve ser a mínima possível, pois a NP central apresenta grande risco de complicações [cms-watermark] e infecções.

A punção da veia femoral deve ser evitada, pois há maior possibilidade de infecções relacionadas ao cateter, especialmente em pacientes obesos.

Existem dois sistemas de NP disponíveis para uso: As individualizadas (manipuladas) e as industrializadas (prontas para uso). Não existem evidências de superioridade clínica entre esses dois tipos. [cms-watermark]

A solução de NP manipulada tem como principais vantagens: A possibilidade de ajustes calórico e proteico ao volume e às necessidades de substratos da maioria dos pacientes. A administração simultânea dos componentes reduz o risco de complicações metabólicas e minimiza a manipulação de vias do acesso venoso. Tem como desvantagens maior risco de erros de prescrição em comparação às bolsas de múltiplos compartimentos, alto custo e grande possibilidade de contaminação durante manipulação. [cms-watermark] [cms-watermark]

A solução de NP pronta para uso, industrializada, tem como vantagens: A redução de erros de prescrição, menor risco de contaminação durante manipulação, fácil armazenamento e custo mais baixo. A desvantagem é a quantidade fixa de líquidos, macronutrientes e eletrólitos. Assim, micronutrientes e eletrólitos podem precisar ser repostos separadamente. [cms-watermark]



Carboidratos

Representam cerca de 50 a 60% das calorias totais. Geralmente fornecidos na forma de dextrose, que é a principal fonte de energia. A concentração desse monossacarídio pode variar, mas frequentemente é ≥ 10% para garantir a estabilidade da mistura;

Nas vítimas de politrauma, a oferta calórica podem alcançar 40 kcal/kg/dia, após a fase aguda.

    Nos pacientes com obesidade mórbida, em relação ao alvo calórico, o objetivo é a obtenção de:
  • Índice de massa corporal (IMC) entre 30 e 50 kg/m²: 11 a 14 kcal/kg/dia do peso real;
  • IMC > 50 kg/m²: 22 a 25 kcal/kg/dia do peso ideal para IMC eutrófico.

Proteínas

Essenciais para a síntese proteica e a manutenção da massa muscular. Correspondem a aproximadamente 15 a 20% das calorias totais, fornecidas como aminoácidos. A quantidade de nitrogênio é ajustada para atender às necessidades proteicas do paciente.

Lesão renal aguda (LRA) e hemodiálise: A recomendação de proteínas para pacientes hipercatabólicos com LRA que não fazem terapia de reposição renal (TRR) é de 1,3 a 1,5 g/kg/dia. Durante TRR intermitente, a recomendação é de 1,5 g/kg/dia. Durante TRR contínua, a recomendação é de 1,7 a 2,5 g/kg/dia. Proteínas não devem ser restringidas para pacientes hipercatabólicos com objetivo de evitar ou retardar o início de TRR.

Em pacientes com obesidade mórbida, o alvo de proteínas é de 2 g/kg/dia (se IMC entre 30 e 40 kg/m²), ou, até 2,5 g/kg/dia (se IMC > 40 kg/m²).

Nos pacientes vítimas de politrauma, as necessidades proteicas são de até 2 a 2,5 g/kg/dia. No paciente grande queimado, a meta proteica sugerida é de 1,5 a 2 g/kg/dia.

Lipídios

Contribuem com cerca de 20 a 30% das calorias totais. As emulsões lipídicas geralmente contêm óleo de soja, fosfatídios de ovo e glicerina. Representam uma parte considerável do fornecimento calórico não proteico. As emulsões de lipídios são utilizadas para prevenir deficiência de ácidos graxos e como fonte calórica. No paciente em estado crítico, 15 a 30% das calorias devem ser oferecidas na forma de lipídios. Suspender a administração da emulsão lipídica, se os níveis séricos de triglicerídios estiverem acima de 400 mg/dL.

Eletrólitos

Adicionados de acordo com a necessidade de cada paciente, por meio de bolsa de NP personalizada ou administrados separadamente por meio de infusão, nos pacientes com bolsa de NP pronta para uso.

Vitaminas e Micronutrientes

Em geral, as necessidades mínimas diárias de vitaminas e minerais para a maioria dos pacientes são alcançadas com dose única diária de solução padrão desses elementos. [cms-watermark] [cms-watermark]

Caso a NP seja de curta duração, não há necessidade de administração de vitamina K. Se a NP durar semanas ou meses, devem-se administrar 2 a 4 mg/semana de vitamina K. [cms-watermark]

A menos que uma deficiência seja identificada, devem-se suplementar vitaminas e micronutrientes de acordo com as necessidades diárias. As vitaminas e micronutrientes podem ser adicionados na bolsa de NP personalizada ou administrados separadamente por meio de infusão, nos pacientes com bolsa de NP pronta para uso.

Autoria principal: Luiza Ruschel Siffert (Clínica Médica, Endocrinologia e Nutrologia).

    Revisão:
  • Ana Clara Alves Costa (Cirurgia Geral e Nutrologia);
  • Vinicius Zofoli (Terapia Intensiva).

Castro MG, Ribeiro PC, Matos LBN, et al. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J. 2023; 38(Suppl 2):2-46.

Compher C, Bingham AL, McCall M, et al. Guidelines for the provision of nutrition support therapy in the adult critically ill patient: The American Society for Parenteral and Enteral Nutrition. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2022; 46(1):12-41.

Berger MM, Shenkin A, Schweinlin A, et al. ESPEN micronutrient guideline. Clin Nutr. 2022; 41(6):1357-424.

Pironi L, Boeykens K, Bozzetti F, et al. ESPEN guideline on home parenteral nutrition. Clin Nutr. 2020; 39(6):1645-66.