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Definição: Técnica cirúrgica utilizada para a correção do prolapso de parede posterior da vagina (retocele), visando reforçar a camada fibromuscular existente entre a vagina e o reto, evitando o prolapso do reto para o lúmen vaginal.
1. Posição: Paciente colocada em posição de litotomia alta com estribo escolhido a critério do cirurgião (posição ginecológica). Não há necessidade de instalação de sonda de Foley (Figura 1).
Figura 1.
Paciente em posição de litotomia
2. Assepsia , antissepsia e anestesia (frequentemente é realizada anestesia geral ou bloqueio regional).
3. Incisão vaginal e dissecção: Com o uso de duas pinças Allis, apreendem-se os cantos do introito vaginal direito e esquerdo; uma terceira pinça Allis deve ser posicionada no ápice proximal da linha média vaginal. Faz-se uma incisão horizontal no períneo entre as pinças colocadas nos cantos do introito vaginal e realiza-se a dissecção da mucosa vaginal com uma tesoura de Metzenbaum com a ponta em paralelo à mucosa vaginal, devendo-se estender em direção cefálica até a altura da pinça Allis colocada previamente no ápice vaginal – sempre ter cautela para se manter no plano tecidual. Realiza-se, com a mesma tesoura, uma incisão da linha perineal em direção ao ápice e apreendem-se, então, as bordas com pinças Allis. Por vezes, há necessidade de realizar divulsão e dissecção cortante bilateralmente para separação completa da camada fibromuscular do epitélio vaginal lateral (Figura 2).
Figura 2.
Incisão vaginal e dissecção.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
4. Exame retal: Deve-se realizar o exame retal para identificar a camada fibromuscular, a parede retal e os músculos levantadores do ânus (Figura 3).
Figura 3.
Exame retal.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
5. Plicatura de linha média: Utiliza-se fio 2-0 de absorção lenta ou permanente para realizar uma sequência de pontos separados para a plicatura da musculatura vaginal, estendendo-se do ápice até o períneo. Em sequência, realiza-se uma segunda rafia com pontos separados, fazendo-se a plicatura da musculatura que está lateralmente aos tecidos aproximados com a primeira camada, sendo fixados na linha média. Realiza-se novamente o exame retal, visando excluir a possibilidade de rafia acometendo a parede do reto (Figura 4).
Figura 4.
Plicatura de linha média.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
6. Reparo da falha: Ao iniciarmos a dissecção, identificamos um defeito isolado na camada fibromuscular posterior. Esses defeitos podem ser laterais (Figuras 5 e 6), em linha média (Figuras 7 e 8), apicais (Figuras 9 e 10) ou perineais (Figuras 11 e 12) . Por vezes, deve-se proceder ao reparo direto do defeito com rafia em pontos separados, em camada única, com fio 2-0 de absorção lenta ou permanente, quando a plicatura de linha média não for suficiente.
Figura 5.
Defeito lateral.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 6.
Reparo da falha lateral.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 7.
Defeito na linha média.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 8.
Plicatura de linha média.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 9.
Defeito proximal.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 10.
Reparo da falha proximal.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 11.
Defeito distal.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 12.
Reparo da falha distal.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
7. Correção com tela: Quando não identificamos tecido fibromuscular de qualidade, é possível utilizar, para correção da lesão, material sintético ou biológico. Deve-se cortar o material escolhido no tamanho correto para que fique esticado sobre o tecido. Realiza-se a sutura ancorando-o com pontos separados com fio 2-0 de absorção lenta no ápice vaginal, bem como as bordas laterais e distais da camada fibromuscular. Caso o material escolhido seja uma tela permanente, ela deve distar pelo menos 2 cm do corpo perineal. Quando já é prevista a necessidade do uso de tela, deve-se realizar a dissecção inicial em um plano tecidual mais profundo para aumentar a distância entre a tela e o lúmen vaginal, objetivando reduzir a chance de erosão da tela para a vagina (Figura 13).
Figura 13.
Correção usando-se tela.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
8. Fechamento da incisão: Ao realizarmos a correção, frequentemente é necessário exérese do tecido redundante da parede vaginal para podermos realizar a aproximação da mucosa vaginal com fio 2-0 de absorção lenta e sutura contínua.
Não se deve reduzir muito o calibre vaginal, especialmente em mulheres com atrofia vaginal. Em mulheres sexualmente ativas, o calibre da vagina ao fim da reconstrução vaginal deve ser de pelo menos três dedos de largura para evitar dispareunia.
Os cuidados pós-operatórios recomendados são:
Autoria principal: Camilla Luna (Ginecologista e Obstetra pela UERJ e FEBRASGO, especialista em Reprodução Assistida pela AMB);
Hoffman BL, Halvorson LM, Schaffer JI, et al. Ginecologia de Williams. 2 ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
Fernandes CE, Sá MFS, eds.
Tratado de Ginecologia da FEBRASGO. 1 ed. Rio de Janeiro: Elsevie; 2019.
Kaeser CT, Rothenberger R, Zoorob D, et al. Bupivacaine Use After Posterior Colporrhaphy to Reduce Postoperative Pain: A Multicenter, Double-Blinded, Placebo-Controlled, Randomized Clinical Trial. Female Pelvic Med Reconstr Surg. 2022; 28(2):72-76.
Winkelman WD, Macharia A, Bharadwa S, et al. Composite Outcomes After Posterior Colporrhaphy With and Without Biologic Graft Augmentation. Female Pelvic Med Reconstr Surg. 2021; 27(2):414-417.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Prolapso dos órgãos pélvicos. 3 ed. São Paulo: FEBRASGO; 2025