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A curetagem uterina semiótica foi utilizada por muito tempo para auxiliar no diagnóstico do sangramento uterino anormal. Com a evolução da histeroscopia, caiu em desuso, porém ainda é considerada uma opção quando não há possibilidade de acesso à vídeo-histeroscopia com biópsia.
1. Anestesia e posicionamento: A paciente é colocada na posição de litotomia e a anestesia pode ser geral, local ou bloqueio local com sedação intravenosa. Realizam-se esvaziamento vesical e toque vaginal bimanual para avaliar o tamanho do útero.
2. Histerometria: A pós assepsia e antissepsia, insere-se o espéculo de Graves erealiza-se o pinçamento do lábio anterior do colo uterino com pinça Pozzi para tração e estabilização do eixo uterino durante a dilatação e a curetagem. Feito isso, introduz-se uma sonda de Sims (histerômetro) delicadamente no orifício externo do colo (OEC), evoluindo a sonda ao passar pelo orifício interno do útero (OIC) até o fundo da cavidade uterina para realizar a medida do tamanho do útero. É importante não forçar os instrumentos ao se deparar com resistências devido ao risco de perfuração uterina.
3. Dilatação uterina: Após realizar a etapa 2, inicia-se a inserção dos dilatadores (ex.: Hegar, Hank ou Pratt) cervicais de calibres progressivamente maiores, visando abrir o OIC. O dilatador deve ser segurado entre o polegar e os dedos indicador e médio, sendo introduzido gradual e lentamente pelo OIC, realizando-se a progressão do calibre do dilatador até que a cureta selecionada possa ser inserida.
Figura da dilatação uterina.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
4. Curetagem uterina: Após a realização da etapa 3, a cureta uterina é introduzida acompanhando o eixo longitudinal do corpo uterino até alcançar o fundo. Nesse momento, a superfície cortante da cureta deve ser posta em contato com o endométrio adjacente e realizados movimentos circunferenciais suaves por toda a superfície uterina. O material é coletado e enviado para estudo histopatológico. Realiza-se, então, nova histerometria para comparar o tamanho do útero.
5. Retirada de instrumental: A retirada do instrumental deve ser realizada na ordem inversa de colocação, procedendo-se, em seguida, à revisão da hemostasia vaginal prévia à retirada do espéculo de Graves.
A curetagem semiótica ginecológica não requer a realização de antibioticoprofilaxia, como a obstétrica. Uma conduta que pode facilitar a realização do procedimento é o amolecimento do colo com
Misoprostol
200 ou 400 microgramas via vaginal ou 400 microgramas via oral, 12 a 24 horas antes do procedimento. O pós-operatório é rápido e, frequentemente, sem complicações, podendo ocorrer apenas sangramento leve.
Autoria principal: Camilla Luna (Ginecologista e Obstetra pelas UERJ e FEBRASGO, especialista em Reprodução Humana pela AMB).
Revisão: João Marcelo Coluna (Ginecologia e Obstetrícia, com mestrado em Fisiopatologia).
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