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Definição: A histerectomia subtotal abdominal consiste na retirada do útero com preservação do colo. Sua indicação pode ser em razão das mais diversas etiologias, entre malignas e benignas, sendo os leiomiomas sintomáticos e o prolapso de órgão pélvico as indicações mais frequentes.
Figura 1.
Classificação das histerectomias.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
A necessidade de exames para avaliação da paciente varia de acordo com a etiologia de cada caso, todavia toda paciente que deve ser submetida ao exame preventivo com esfregaço de Papanicolau,
para descartar a possibilidade de neoplasia antes de ser realizada a cirurgia, bem como as pacientes com indicação cirúrgica decorrente de sangramento uterino anormal devem ser submetidas a histeroscopia com biópsia endometrial para descartar malignidade.
Dentre as complicações possíveis após uma histerectomia abdominal, as mais comuns são celulite vaginal e infecção urinária. Em virtude disso, recomenda-se o uso de uma Cefalosporina de primeira ou segunda geração como antibiótico profilático. Por se tratar de uma cirurgia com baixo risco de lesão intestinal, recomenda-se apenas a aplicação de enema para esvaziamento retal antes do procedimento.
1.
Posição:
Paciente em posição supina para instalação do cateter de Foley.
2.
Assepsia, antissepsia e anestesia
(frequentemente realizada anestesia geral).
3.
Acesso a cavidade abdominal:
A cirurgia pode ser realizada por um único cirurgião - mas comumente são dois, sendo um de cada lado. A incisão pode ser longitudinal (ex.: umbilico-pubiana) ou transversal (ex.: Pfanistiel), a depender da indicação clínica.
4.
Exposição:
Instalação dos afastadores autorretráteis (ex.: OÇonnor-O'Sullivan ou Balfour) para exploração visual e manual da pelve e do abdome. Nesse momento, realiza-se o rebatimento em bloco dos intestinos do campo cirúrgico, e o útero é segurado e elevado da pelve. Na vigência de aderências extensas, recomenda-se restaurar a anatomia normal para facilitar no procedimento.
5.
Transecção do ligamento redondo:
Posicionam-se pinças Kelly curvas bilateral e transversalmente sobre a tuba uterina e o ligamento útero-ovárico em posição imediatamente lateral ao útero. A histerectomia se inicia quando é realizada a divisão na linha média de um dos ligamentos redondos, promovendo acesso ao espaço retroperitoneal e possibilitando a identificação de ureter, artéria uterina e ligamento cardinal. Usando-se fio de absorção lenta 0 a cerca de 1 cm distalmente à divisão planejada, realiza-se sutura de transfixação. Com pinças hemostáticas, esses pontos serão mantidos e tracionados para cima e para fora, promovendo tensão ao longo do segmento interposto do ligamento redondo. Este é, então, seccionado, e a linha da incisão é dirigida inferiormente até que chegue a 1 ou 2 cm de seu início
(figura 2)
.
Figura 2.
Transecção do ligamento redondo.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
6.
Abertura do ligamento largo:
Ao realizar a transecção do ligamento redondo, o ligamento largo é, então, aberto, expondo os folhetos anterior e posterior. As bordas medial e lateral do folheto anterior são seguradas com pinças atraumáticas, e é, então, aplicada tensão para cima e para fora, para o tecido sofrer incisão com lâmina cortante (ex.: bisturi), mantendo-se a linha de incisão da curvatura até um ponto médio entre os orifícios interno e externo do colo do útero, devendo estas duas últimas etapas ser repetidas do outro lado. Em seguida, deve-se realizar a identificação bilateral dos ureteres. Feito isso, o folheto posterior do ligamento largo pode, então, ser aberto de ambos os lados por incisão cortante na direção dos ligamentos uterossacros.
7.
Conservação dos ovários:
Quando se deseja conservar os ovários, o dedo indicador deve ser mantido flexionado sob a tuba uterina e o ligamento útero-ovárico. Uma pinça Kelly curva que já havia sido colocada atravessando perpendicularmente a tuba uterina e o ligamento útero-ovárico no início do procedimento estará posicionada medialmente ao dedo do cirurgião. Nesse momento, colocam-se duas pinças Heaney lateralmente ao dedo do cirurgião, devendo ambas estar voltadas para o útero
(figura 3)
.
Com as pinças posicionadas, o cirurgião retira o dedo, e o segmento entre a pinça Kelly e a Heaney medial é seccionado (linha pontilhada). Realiza-se a rafia solta com fio 0 de absorção lenta em volta do pedículo mantido pela porção mais lateral das duas pinças Heaney. Quando o nó estiver seguro, retira-se a pinça lateral, e uma sutura de transfixação é aplicada ao redor do pedículo mantido pela outra pinça
(figura 4)
. Essa sutura deve ser posicionada distalmente e acima do primeiro nó livre, quando, então, a segunda pinça Heaney deve ser retirada, mantendo-se a Kelly, e estando, então, os anexos livres.
Figura 3.
Conservação dos ovários.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
Figura 4.
Sutura de transfixação.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
8.
Ooforectomia:
Quando houver a intenção de remover os anexos, a tuba uterina deve ser apreendida com uma pinça Babcock e afastada do ligamento infundibulopélvico
(figura 5)
. Secciona-se o peritônio lateral ao ligamento infundibulopélvico (IP) com uma incisão cranial e lateral; o peritônio medial já havia sido seccionado no ligamento largo como parte do folheto posterior.
Ao isolar o ligamento IP, o ureter torna-se ainda mais visível, devendo, então, ser posicionadas duas pinças Heaney curvas em volta do ligamento, e os arcos das pinças devem estar voltados para a região onde se planeja realizar a incisão (linha pontilhada); a ligadura deve ser realizada conforme descrito na etapa 7. Feito isso, com os anexos livres da parede lateral, eles podem ocupar o campo cirúrgico, podendo ser mantidos presos pela pinça Kelly, ainda localizada sobre o ligamento útero-ovárico, ou podem ser seccionados e removidos.
Figura 5.
Ooforectomia.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
9.
Retalho vesical:
Quando o folheto anterior do ligamento largo é aberto, realiza-se a secção do peritônio que conecta o limite superior da bexiga com o istmo uterino; há apenas tecido conjuntivo frouxo unindo as superfícies. Existem diversas técnicas para realizar essa mobilização, sendo a preferencial a dissecção cortante - neste caso, a prega vesicouterina é pinçada e tracionada com o colo subjacente. Simultaneamente, faz-se uma tração contrária com as pinças Kelly posicionadas anteriormente no fundo uterino, e, em seguida, o tecido conjuntivo é seccionado próximo ao colo com uma tesoura Metzenbaum, a fim de evitar lesão vesical.
10.
Artérias uterinas:
As artérias uterinas encontram-se no nível do istmo ao longo da face lateral do útero, envolvidas por peritônio e tecido areolar frouxo do ligamento largo. O processo de retirada desse tecido é denominado esqueletização, tendo como objetivo reduzir o volume de tecido do vaso, consequentemente, diminuindo a possibilidade de retração do vaso, ao ser retirada a pinça quando feito o nó.
Esse processo é realizado com pinças finas rombas exercendo suavemente tração e contratração, e afastando dos vasos. Com uma tesoura Metzenbaum, é realizada uma incisão proximal ao útero, devendo ser iniciada no plano superior e prosseguindo para baixo na direção dos vasos. Terminada a esqueletização, as duas pinças Heaney curvas são posicionadas perpendicularmente ao eixo dos vasos, e uma terceira pinça curva é posicionada a um ângulo de 45 graus acima do local planejado para incisão.
Em seguida, os vasos são seccionados, é realizado ponto simples com fio 0 de absorção lenta abaixo da pinça localizada mais abaixo, e a ponta do fio é enrolada até a articulação da pinça. Quando o nó é apertado, abre-se e fecha-se imediatamente a pinça do meio e retira-se a pinça mais inferior das três, realizando-se, então, um ponto simples abaixo da pinça do meio e acima do primeiro ponto. Quando o nó é apertado, a pinça é retirada e a pinça superior é deixada para prevenir sangramento oriundo da circulação colateral
(figura 6)
.
Figura 6.
Ligadura das artérias uterinas.
Adaptada de:
Hoffman BL, et al., 2014
11. Amputação do fundo: A depender do tamanho do útero, faz-se necessária a secção do fundo, cortando desde o istmo até o colo. Após a remoção do corpo, podem ser apreendidas as paredes anterior e posterior do istmo uterino com pinças Kocher, com o objetivo de elevar o colo.
12.
Incisão do ligamento cardinal:
Os ligamentos cardinais estão localizados lateralmente ao útero e inferiormente aos vasos uterinos. Para clampeá-los, uma pinça Heaney reta deve ser posicionada paralelamente à margem lateral do útero, e, à medida que é fechada, a pinça deve ser ligeiramente angulada para se afastar do eixo vertical do útero a uma altura média entre o orifício interno e externo do colo do útero. A secção do ligamento que está pinçado é realizada, e, com bisturi e com fio 0 de absorção lenta, é aplicada uma sutura simples ou de transfixação, e, quando o nó é apertado, a pinça é removida. Isso também é realizado no lado contralateral.
13.
Remoção do útero:
O corpo do útero é seccionado cuidadosamente com bisturi frio ou elétrico, evitando-se lesionar as estruturas adjacentes. O topo cervical é suturado com fio 0 absorvível com rafia contínua ou separada. Ao término, realiza-se revisão da hemostasia.
14.
Fechamento da parede abdominal:
O fechamento é feito por planos anatômicos, e é realizado curativo na ferida operatória.
Autoria principal: Camilla Luna (Ginecologista e Obstetra pela UERJ e FEBRASGO, especialista em Reprodução Humana pela AMB).
Revisão:
João Marcelo Coluna (Ginecologia e Obstetrícia, com mestrado em Fisiopatologia).
Baracat EC. Condutas em Ginecologia Baseadas em Evidencias: Protocolos Assistenciais Clínica Ginecológica do Hospital das Clinicas. FMUSP. São Paulo: Atheneu, 2016.
Hoffman BL, Schorge J, Schaffer JI, et al. Ginecologia de Williams. 2a ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
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