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Hemoglobina Glicada (HbA1c)

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Definição: A glico-hemoglobina mais estudada e importante tanto clínica quanto laboratorialmente é a hemoglobina glicada (HbA1c), que é formada através de uma ligação cetoamina da molécula de glicose ao aminogrupo aminoterminal (resíduo de valina) de uma ou de ambas as cadeias beta da hemoglobina A (HbA).

Sinônimos: HbA1c; A1c; Hemoglobina A1c; Hemoglobina glicosilada; HbA1c - Sangue.

As glico-hemoglobinas correspondem a um grupo heterogêneo de substâncias formadas através de um processo bioquímico conhecido como glicação de proteínas. Essa reação ocorre de maneira não enzimática e espontânea, por meio de uma ligação estável entre um açúcar (no caso a glicose ) e uma proteína (no caso a hemoglobina).

A hemoglobina (Hb) é formada pelo grupo heme (comum a todas as variantes da Hb), associado a quatro cadeias polipeptídicas. Em indivíduos normais, na vida pós-natal são encontrados três tipos diferentes de hemoglobina: hemoglobina A ou HbA1 (cerca de 97% da Hb total), hemoglobina A2 ou HbA2 (aproximadamente 2,5% da Hb total) e hemoglobina fetal ou HbF (cerca de 0,5% da Hb total).

Em cada hemoglobina do adulto, são identificadas duas cadeias globulínicas alfa, associadas a outras duas cadeias não alfa, do tipo beta, delta e gama. O arranjo dessas frações é que diferencia os tipos de hemoglobina normais existentes: HbA1 (alfa 2 beta 2), HbA2 (alfa 2 delta 2) e HbF (alfa 2 gama 2).

O termo hemoglobina glicada (HbA1c) compreende um pequeno grupo de hemoglobina advindo do fracionamento da HbA1, na qual há um resíduo de glicose ligado ao grupo amino terminal da(s) cadeia(s) beta da HbA1.

A glicose, por se ligar de maneira estável e essencialmente irreversível e contínua à cadeia da hemoglobina, possui uma relação proporcional entre sua concentração e os níveis de HbA1c.

Tendo em vista que a meia-vida das hemácias é de aproximadamente 90-120 dias, a HbA1c corresponde à média das glicemias dos últimos 3 meses (mais ou menos 1 mês), sendo que a glicemia recente é a que mais influencia seu valor (50% da HbA1c é formada no mês imediatamente precedente ao exame).

Dessa forma, a determinação da HbA1c apresenta vantagens clínicas em relação a glicemia de jejum, já que ela não está sujeita a flutuações diárias, além de não ser influenciada por exercícios físicos ou ingestão alimentar, por exemplo.

    Indicações:
  • Rastreio, diagnóstico, acompanhamento, predição de complicações e monitoração do tratamento no contexto do diabetes mellitus (DM) e da síndrome metabólica.

Como solicitar: Hemoglobina glicada, HbA1c ou A1c.

  • Orientações ao paciente: Não é necessário nenhum preparo específico;
  • Tubo para sangue total (tampa roxa - EDTA): Armazenar o material sob refrigeração (2-8 o C);
  • Material: Sangue total;
  • Volume recomendável: 1,0 mL.
Texto alternativo para a imagem Tubo para sangue total - tampa roxa - EDTA. Ilustração: Caio Lima.
  • Normoglicemia: < 5,7% (glicemia média estimada < 117 mg/dL);
  • Pré-diabetes ou risco aumentado para diabetes mellitus (DM) : 5,7-6,4% (glicemia média estimada de 118 a 139 mg/dL);
  • Diabetes mellitus (DM) estabelecido: ≥ 6,5% (glicemia média estimada ≥ 140 mg/dL), quando confirmados em dias diferentes, com uma segunda dosagem de HbA1c;
  • Alvo terapêutico: Níveis em torno de 7,0% (glicemia média estimada de 154 mg/dL), devendo ser individualizado.
    Observações!
  • Por recomendação do National Glycohemoglobin Standardization Program (NGSP) e da American Diabetes Association (ADA), o cálculo da glicemia média estimada (GME) deverá constar no laudo;
  • Por recomendação da ADA, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) e da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), os métodos utilizados pelos laboratórios clínicos deverão ser certificados pelo NGSP, possuindo rastreabilidade de desempenho analítico ao método utilizado nos estudos DCCT ( Diabetes Control and Complications Trial ) e UKPDS ( United Kingdom Propective Diabetes Study ). Cabe ressaltar que apenas métodos com essa certificação podem ser utilizados para o diagnóstico do DM;
  • O laboratório clínico deve participar de programas de controle interno e externo da qualidade (ensaios de proficiência);
  • Para populações especiais (crianças e adolescentes, gestantes, idosos com diabetes), o valor de referência deve ser individualizado e varia de acordo com cada entidade;
  • Nas hemoglobinopatias homozigóticas, a dosagem da HbA1c não é aplicável, em função da ausência de hemoglobina A. Nessas situações, o acompanhamento desses pacientes deve ser realizado com outros exames, como a dosagem da frutosamina e/ou albumina glicada.

Perda crônica de sangue, insuficiência renal crônica (IRC), estados hemorrágicos, anemias hemolíticas, presença de hemoglobina S ou C, gravidez, drogas (antirretrovirais, Dapsona), comprometimento da medula óssea, deficiência de eritropoietina e altas doses de vitaminas antioxidantes (ex.: vitamina C, vitamina E ) podem levar a uma diminuição do valor real dos níveis de HbA1c.

Altos níveis de hemoglobina F, deficiência de ferro e/ou vitamina B12 e/ou folato, uremia (hemoglobina carbamilada), uso de salicilatos (hemoglobina acetilada), uso crônico de opiáceos, condições que aumentem o número de glóbulos vermelhos e/ou do valor do hematócrito, hipertrigliceridemia, alcoolismo crônico e hiperbilirrubinemia podem gerar um aumento real das suas concentrações.

As concentrações de HbA1c tendem a aumentar, de maneira sutil, com a idade.

A HbA1c é uma medida indireta da glicemia.

Pacientes que apresentam uma grande variabilidade glicêmica diária (ampla alternância de estados entre hiper e hipoglicemias) podem possuir resultados de HbA1c dentro dos limites da normalidade, refletindo, entretanto, uma falsa situação regularidade.

Brancos não hispânicos usualmente podem apresentar níveis mais baixos de HbA1c, quando comparados aos negros afro-americanos.

A depender da metodologia utilizada, as variantes de hemoglobinas heterozigóticas (ex.: D, C, E, S etc.) bem como em pacientes com altos níveis de hemoglobina fetal (F), podem apresentar falsos aumentos, diminuições, ou não interferir na determinação da HbA1c.

Nas hemoglobinopatias homozigóticas, a dosagem da HbA1c não é aplicável, em função da ausência de hemoglobina A. Nessas situações, o acompanhamento desses pacientes deve ser realizado com outros exames, como a dosagem da frutosamina e/ou albumina glicada.

A fração lábil da hemoglobina glicada (base de Schiff), também pode interferir nos resultados, em algumas metodologias.

Hemotransfusão recente pode causar tanto aumentos como diminuições dos níveis.

Aumento: Diabetes, pré-diabetes.

Diminuição: Não se aplica.

Autoria principal: Pedro Serrão Morales (Patologia Clínica e Medicina Laboratorial).

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