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Definição:
Os anticorpos anti-leptospirose IgM, assim como os IgG, são comumente avaliados pela metodologia de ELISA (do inglês,
Enzyme-Linked Immunosorbent Assay
), sendo um teste sorológico simples, de fácil execução, altamente sensível e específico para o diagnóstico da leptospirose.
Sinônimos: Leptospira - Anticorpos IgM; Leptospirose - IgM (ELISA); Leptospirose - ELISA-IgM; Leptospirose - Sorologia IgM; Leptospirose - IgM, Ab; Leptospirose - Imunoglobulina M; Leptospirose - Anticorpos IgM Sérico; Leptospirose - Anticorpos IgM - Soro; Leptospirose - Anticorpos IgM - Sangue; Anticorpos Anti-leptospirose IgM.
A leptospirose é uma zoonose de distribuição e importância mundial, mais frequente em países tropicais e subtropicais. No Brasil, ela é endêmica em várias regiões, com picos epidêmicos em períodos chuvosos.
É uma doença infecciosa febril de início abrupto, causada por bactérias patogênicas do gênero Leptospira, que são transmitidas para os humanos (hospedeiro terminal e acidental da doença) através do contato, direto ou indireto, com a urina de animais reservatórios (em áreas urbanas, notadamente de ratos) ou alimentos, água e lama contaminados pela bactéria.
Foram descritas mais de 200 sorovares patogênicos, divididos em cerca de 25 sorogrupos de bactérias do gênero Leptospira. Essas leptospiras se mantém na natureza nos túbulos renais de certos animais, principalmente roedores (especialmente ratos de esgoto), mas também em bovinos, ovinos, suínos, equinos e cães.
Após a penetração no corpo humano (pela pele com lesões ou íntegra se muito tempo imersa em água, ou mucosas), as leptospiras caem na circulação, invadindo praticamente todos os tecidos e órgãos do organismo, sendo posteriormente removidas pelo sistema imune. Todavia, elas podem se estabelecer nos túbulos renais, sendo liberadas na urina por um período de semanas a meses.
Seu período de incubação varia, geralmente, entre 5 e 14 dias, apresentando um amplo espectro de manifestações clínicas inespecíficas (ex.: febre, artralgia, mialgia, cefaleia, tosse, diarreia, anorexia, náuseas/vômitos, hipermia/hemorragia conjuntival, dor ocular, exantema), variando desde quadros assintomáticos/oligossintomáticos a formas graves (ex.: síndrome de Weil) e potencialmente letais.
Devido a sua diversidade de apresentações clínicas, a leptospirose pode ser confundida com outras doenças, como dengue, influenza, malária, hepatites e rickettisioses, por exemplo. Dessa forma, exames laboratoriais para a detecção do agente etiológico (ex.: PCR,
isolamento viral) ou de anticorpos específicos (ex.: ELISA-IgM, microaglutinação - MAT
) são importantes para o auxílio diagnóstico.
A escolha do teste diagnóstico depende da fase evolutiva da doença. Na primeira semana (fase aguda ou fase de leptospiremia), os métodos de detecção da bactéria (PCR e isolamento), em fluídos como o sangue, são os de eleição, já que nessa fase inicial as espiroquetas são encontradas na circulação.
Já a partir da segunda semana (fase tardia ou imune) ocorre a soroconversão, período da doença onde as concentrações de anticorpos elevam-se no sangue e, dessa forma, os testes sorológicos (ELISA-IgM e microaglutinação - MAT ) ganham destaque.
Essa soroconversão costuma ocorrer cerca de 5-7 dias após o início dos sintomas mas, em alguns casos, verifica-se apenas após o 10
o
dia ou mais. O pico da produção de anticorpos é observado, usualmente, a partir do 14
o
dia de doença.
Por conta da dificuldade e complexidade técnica para a realização do isolamento viral, PCR
ou cultura, a grande maioria do diagnósticos de leptospirose é feita através de exames sorológicos.
Os anticorpos anti-leptospirose IgM, assim como os IgG, são comumente avaliados pela metodologia de ELISA (do inglês,
Enzyme-Linked Immunosorbent Assay
), sendo um teste sorológico simples, de fácil execução, altamente sensível e específico para o diagnóstico da leptospirose. Durante o curso natural da doença, o exame ELISA-IgM, geralmente, torna-se positivo um pouco mais cedo do que a microaglutinação (MAT).
Se o resultado do exame for negativo (com a coleta sendo realizada antes do 7
o
dia de doença), coletar uma segunda amostra para a realização do ELISA-IgM a partir do 7
o
dia do início dos sintomas a fim de se avaliar uma possível soroconversão, indicando assim uma infecção recente ou atual. Em caso de positividade, esse resultado deverá ser confirmado através da microaglutinação (MAT).
(Ver algoritmo I)
Caso o primeiro exame seja negativo, mas com o material coletado após o 7
o
dia do início dos sintomas, torna-se improvável o diagnóstico (doença descartada pelo fluxograma do Ministério da Saúde). (Ver algoritmo II)
Testes rápidos imunocromatográficos para a detecção de anticorpos (IgM ou IgM/IgG) também encontram-se disponíveis comercialmente. Eles apresentam uma performance aceitável durante a fase aguda da doença como método de diagnóstico precoce, com a vantagem de proporcionarem resultados em pouco tempo (cerca de 15 minutos) e poderem ser facilmente implementados em unidades de saúde sem infraestrutura laboratorial.
A cultura de leptospiras possui uma taxa muito baixa de sucesso e, portanto, não deve ser utilizada, via de regra, para o diagnóstico.
Algoritmo I
- Encerramento do caso de leptospirose com amostra colhida antes do 7º dia do início dos sintomas.
Algoritmo II - Encerramento do caso de leptospirose com amostra colhida a partir do 7º dia do início dos sintomas.
Como solicitar: Leptospirose - Anticorpos IgM (ELISA).
Figura 1
. Tubo para soro - tampa vermelha.
Ilustração:
Caio Lima
Figura 2.
Tubo para soro - tampa amarela.
Ilustração:
Caio Lima
Não reagente.
Observação!
Os pontos de corte para os anticorpos IgM anti-leptospira podem variar de acordo com o laboratório clínico e kit diagnóstico utilizado.
Devido a sua sensibilidade e alta especificidade diagnóstica (sorovar/sorogrupo), o Teste de Aglutinação Microscópica (MAT)
é considerado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o teste "padrão-ouro" de referência para a confirmação do diagnóstico sorológico da leptospirose.
A soroconversão costuma ocorrer cerca de 5-7 dias após o início dos sintomas mas, em alguns casos, verifica-se apenas após o 10
o
dia ou mais, dificultando a interpretação clínico-laboratorial.
Não se deve considerar, isoladamente, os resultados de um único teste de IgM-ELISA.
Um resultado positivo deve ser confirmado com o Teste de Aglutinação Microscópica (MAT).
Reações cruzadas devido à presença de outras doenças, resultados falso-negativos ou falso-positivos podem ocorrer.
Os anticorpos IgM podem permanecer detectáveis no sangue por anos.
Esse exame não é capaz de indicar o sorogrupo infectante, informação importante em termos de vigilância epidemiológica.
Amostras acentuadamente hemolisadas podem prejudicar os seus resultados.
Um resultado não reagente, obtido por qualquer exame sorológico específico para a leptospirose (ELISA-IgM, microaglutinação - MAT
), com uma amostra de sangue coletada antes do 7
o
dia do início dos sintomas, não deve descartar por definitivo um caso suspeito. Uma nova amostra, a partir do 7
o
dia de doença, deve ser coletada para auxiliar na interpretação do diagnóstico.
A interpretação dos resultados obtidos pelas diferentes técnicas e tipos de exames laboratoriais para o auxílio diagnóstico da leptospirose deve ser cuidadosa, já que diversos fatores (ex.: limitações metodológicas, fase da doença/momento da coleta, cicatriz sorológica, uso de antibióticos, circulação de outras doenças), podem influenciar nos resultados. Dessa forma, sempre que possível, os exames devem ser avaliados em amostras sequencias (pareadas) e utilizados de maneira complementar entre si, sempre correlacionados com a história epidemiológica, dados clínicos e resultados de outros exames.
Reagente: Leptospirose aguda/recente.
Não reagente: Indivíduos saudáveis; leptospirose (fase leptospirêmica precoce).
Autoria principal: Pedro Serrão Morales (Patologia Clínica e Medicina Laboratorial).
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Coordenação-Geral de Doenças Transmissíveis. NOTA INFORMATIVA Nº 39/2019-CGDT/DEVIT/SVS/MS.
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