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Alimentação Vegetariana em Pediatria

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Introdução: Com o devido cuidado com a composição da alimentação e com atenção às necessidades nutricionais da criança, é possível adotar uma alimentação vegetariana/vegana na infância. Por se tratar de uma fase de crescimento e desenvolvimento, alguns nutrientes são necessários em maior quantidade.

    Como é classificada a dieta vegetariana?
  • Conforme o consumo de subprodutos de origem animal na alimentação e no uso pessoal (ex.: ovos, laticínios, couro e outros);
  • Vegano: Não consome qualquer alimento, produto ou vestuário derivado de animal; também não frequenta atividade de lazer às custas de exposição animal como aquários e zoológicos;
  • Vegetariano: Não consome derivado animal em sua dieta;
  • Ovovegetariano: Não consome laticínios, porém come ovos;
  • Lactovegetariano: Não consome ovos, mas consome leite e derivados;
  • Ovolactovegetariano: Consome ovos, leite e laticínios, mas não come carne.
    Quais são os riscos de se adotar dieta vegetariana?
  • Maior vulnerabilidade a evoluir com deficiência de nutrientes e minerais como gorduras, ferro, zinco, vitamina B 12 , cálcio e vitamina D.

Atenção! Adolescentes que adotam dieta vegetariana ou vegana para emagrecimento: Monitorar presença de distúrbios alimentares e reforçar a necessidade de se ingerir uma quantidade adequada de nutrientes, gorduras e calorias para que seu crescimento seja adequado e saudável. Fale com o médico do seu filho se você estiver preocupado que a dieta do seu filho possa não ser saudável ou suspeitar que seu filho tenha um distúrbio alimentar.

    Quais são os componentes necessários ao crescimento?
  • Ferro :
    • É necessário ao crescimento (especialmente durante o estirão) e, em meninas, após a menarca;
    • O ferro é encontrado principalmente na carne, mas outros alimentos também contêm esse nutriente (em menor quantidade). Ex.: grãos integrais, feijão e folhas verdes;
    • Comer esses alimentos com comidas/bebidas ricas em vitamina C (laranja, tomate, limão) ajuda o corpo a absorver o ferro disponível;
    • Deixar o feijão de molho por 12 horas antes do cozimento, trocando a água algumas vezes, reduz a concentração de fitatos e aumenta a disponibilidade do ferro;
    • Observação! A SBP recomenda a suplementação de ferro para todas as crianças com até 2 anos, independentemente da orientação alimentar;
  • Vitamina B 12 :
    • Esta vitamina deverá ser ofertada através de produtos fortificados com vitamina B 12 , como alguns leites de soja, cereal ou através de suplementação diária;
  • Zinco:
    • Importante para o crescimento e para auxílio na proteção contra infecções;
    • Como o zinco é encontrado na carne e em produtos lácteos, as crianças que não se alimentam de leite devem receber grãos, feijão, nozes e produtos à base de soja;
    • As fontes com maior biodisponibilidade de zinco são os grãos germinados (menor teor de fitatos) e os cereais fortificados;
  • Cálcio e Vitamina D :
    • Necessários para manutenção da saúde óssea durante o crescimento;
    • Crianças que consomem leite e derivados provavelmente obtêm a necessidade diária de cálcio através da dieta;
    • Caso a criança não ingira nenhum produto de origem animal (crianças veganas), ela deverá obter o cálcio de outras formas, como através de algumas verduras (brócolis, couve, quiabo, nabo), leite de soja fortificado com cálcio ou através de suplementos;
    • Outros alimentos fortificados com cálcio podem ser utilizados, como cereais, barrinhas de cerais e suco de laranja. Muitas vezes, nesses alimentos, a vitamina D também é adicionada, o que ajuda na absorção do cálcio;
    • Outras fontes de vitamina D: Ovos (pouca concentração, como todos os alimentos), exposição solar (principal fonte de vitamina D).

Observação! Segundo a SBP, deve-se suplementar vitamina D para todas as crianças menores de 1 ano, a partir da primeira semana de vida, com 400 unidades de vitamina D. Entre 1 e 2 anos, a dose recomenda é de 600 unidades.

    Qual é a quantidade adequada de energia a ser consumida por criança vegetariana?
  • A quantidade de calorias necessárias é a mesma de dietas não restritivas, mas, em alguns casos (nas dietas muito restritivas), a quantidade de alimentos para se obter o conteúdo energético necessário supera a capacidade gástrica da criança;
  • Em crianças maiores, uma boa opção para aumentar a oferta calórica é oferecer produtos à base de nozes, macadâmias, castanhas, amendoim e suas manteigas.
    Qual é a importância da proteína? Como ela pode ser adquirida?
  • As principais fontes de proteínas vegetais são as leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico e soja), cereais, nozes e sementes;
  • Para garantir uma oferta adequada de todos os aminoácidos, esses alimentos devem ser consumidos de forma variada (composição e digestibilidade muito variáveis);
  • Para assegurar uma composição de aminoácidos e uma absorção adequadas, alguns autores sugerem aumentar a quantidade de proteína na dieta dessas crianças, sendo um aumento de 30-35% nos lactentes, 20-30% nas crianças entre 2 e 6 anos e 15-20% nos maiores de 6 anos.
    Qual é o consumo ideal de gordura?
  • As crianças vegetarianas tendem a ingerir uma quantidade menor de gordura do que as onívoras;
  • O consumo ideal de gorduras deve representar 25-35% do total de calorias da dieta;
  • Consumo abaixo de 25% está associado a morbidades, como déficit ponderoestatural, e abaixo de 15% a deficiências de ácidos graxos essenciais.
    Quais são as orientações gerais para essas mães?
  • Aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade;
  • Aleitamento materno até 2 anos ou mais;
  • Atenção à dieta materna: Ingerir quantidades adequadas de ácidos graxos essenciais, ferro, zinco, vitamina B 12 e folato;
  • Na impossibilidade de aleitamento materno, optar por fórmulas infantis à base de proteína hidrolisada de arroz ou de proteína isolada de soja para os maiores de 6 meses;
  • Não utilizar bebidas de soja, arroz (somentes nas fórmulas especiais, descritas acima) ou amêndoas, pois são nutricionalmente inadequadas.
    Quais são as indicações de rastreio laboratorial para identificar deficiência nutricional?
  • Ferro: Dosar a cada 2-3 anos em pacientes clinicamente estáveis e mais frequentemente em pacientes com fatores de risco, como baixo peso ou fluxo menstrual intenso. Realizar hemograma completo e ferritina;
  • V itamina D: Para os pacientes com baixa ingestão de vitamina D, sugere-se dosar a 25-OH-vitamina D no início do acompanhamento e, no follow up , testar de acordo com o resultado de base (primeira dosagem), monitorando suplementação (6 meses após, caso iniciada reposição). Quando os resultados forem normais, rechecar a cada 2-3 anos;
  • Vitamina B 12 : Suplementar empiricamente vitamina B 12 nos pacientes veganos. Medir a vitamina B 12 sérica se houver suspeita de deficiência (ex.: má adesão à reposição) ou em casos de anemia macrocítica (anemia causada pela deficiência de vitamina B 12 ou folato).

Autoria principal: Gabriela Guimarães Moreira Balbi (Pediatria pela UFPR e Reumatologia Infantil pela UNIFESP).

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