Conteúdo copiado com sucesso!

Úlcera Vulvar Aguda

Voltar

A úlcera vulvar aguda, também conhecida como úlcera de Lipschutz ou úlcera aftosa simples, é caracterizada por uma lesão dolorosa que surge na vulva de forma repentina. Trata-se de uma condição não sexualmente transmissível que costuma afetar meninas e mulheres adolescentes. Não tem caráter crônico, porém pode haver recorrências. [cms-watermark]

Por definição, segundo a Sociedade Internacional para o Estudo das Doenças Vulvovaginais (ISSVD), úlcera é um defeito profundo na epiderme que atinge uma parte ou toda a derme. [cms-watermark]

A causa é desconhecida. Acredita-se que antígenos microbianos, por meio de mimetismo molecular, induzam uma resposta imune citotóxica, resultando em vasculite local, ou que a úlcera seja a manifestação clínica de uma reação de hipersensibilidade a uma infecção viral ou bacteriana, com deposição de complexo imune nos vasos dérmicos, ativação do complemento, microtrombose e subsequente necrose tecidual.

Em aproximadamente 30% dos casos, há associação a infecções virais ou bacterianas. A infecção pelo vírus Epstein-Barr (VEB) é a causa mais comum. Poucos casos descritos são associados a bactérias ( Mycoplasma pneumoniae ). Outras infecções prévias associadas descritas são:

  • Infecções respiratórias virais (parvovirus, influenza);
  • Parotidite ( [cms-watermark] paramyxovirus);
  • Gastroenterite ( Salmonella );
  • Toxoplasmose;
  • Citomegalovirose;
  • Doença de Lyme;
  • Covid-19;
  • Zika;
  • Chikungunya;
  • Também há relatos de casos após a vacina contra a Covid-19. [cms-watermark]

Anamnese

As pacientes típicas são meninas adolescentes ou mulheres jovens (< 20 anos) não sexualmente ativas que relatam o início repentino de uma ou várias ulcerações vulvares. A maioria das pacientes relata sintomas prodrômicos semelhantes a influenza ou mononucleose, incluindo:

  • Febre;
  • Mal-estar;
  • Amigdalite;
  • Linfoadenopatia. [cms-watermark]

Algumas pacientes têm histórico de aftose oral e/ou lesões orais concomitantes no momento da apresentação. [cms-watermark]

A anamnese deve ser cuidadosa e abordar a queixa principal, englobando tempo de evolução das úlceras, informações sobre queixas genitais e sistêmicas (febre, mal-estar, amigdalite e linfoadenopatia), relato de recorrência, história sexual cuidadosa, inclusive possíveis abusos sexuais. Especial atenção aos sintomas oculares, neurológicos e gastrointestinais para diagnóstico diferencial com síndrome de Behçet.

Exame Físico

Ao realizar exame físico, incluir pele, mucosas genital, oral e ocular e linfonodos. A presença de hepatoesplenomegalia também deve ser avaliada.

As úlceras podem ocorrer em áreas com pelos e mucosas e são, mais frequentemente, encontradas na face medial dos pequenos lábios. Podem ser múltiplas e, geralmente, simétricas bilateralmente ( kissing lesions ). A maioria mede entre 1-3 cm de diâmetro com 1-2 mm de profundidade. [cms-watermark]

As lesões iniciais são acinzentadas ou necróticas, com edema variável e muita dor local. Abaixo dessa escara necrótica encontra-se a úlcera com uma base composta de um exsudato amarelado, podendo evoluir para uma úlcera profunda.

As úlceras aftosas são um diagnóstico de exclusão. A biópsia não é específica e não há exames laboratoriais que auxiliam no diagnóstico.

A infecção prévia pelo VEB pode ser confirmada por exames sorológicos com a detecção sérica de anticorpos (IgM e IgG).

O exame físico deve incluir avaliação da cavidade oral, da mucosa ocular e de toda pele e mucosa vulvovaginais.

Exames laboratoriais para excluir herpes simples e sífilis são indicados.

A biópsia está indicada apenas [cms-watermark] para casos crônicos ou persistentes e se presentes áreas enduradas ou outros achados suspeitos de malignidade.

Não há diretrizes padronizadas para o diagnóstico. Alguns autores propõem o algoritmo de diagnóstico descrito a seguir.

    Critérios diagnósticos: presença de dois critérios maiores e pelo menos dois menores.
  1. Critérios maiores:
    • Início agudo de uma ou mais úlceras dolorosas na vulva; [cms-watermark]
    • Exclusão de causas infecciosas e não infecciosas (como trauma). [cms-watermark]
  2. Critérios menores: [cms-watermark]
  • Localização da úlcera no vestíbulo ou lábio menor; [cms-watermark]
  • Virgem ou sem atividade sexual nos últimos 3 meses; [cms-watermark]
  • Sintomas gripais; [cms-watermark]
  • Infecção sistêmica dentro de 2-4 semanas antes do início da úlcera. [cms-watermark]

As lesões não costumam deixar sequelas e apresentam resolução espontânea entre 1-3 semanas em média.

  • Herpes genital;
  • Sífilis;
  • Cancro mole;
  • Doença de Crohn;
  • Uso de metotrexato; [cms-watermark]
  • Traumas/manipulação; [cms-watermark]
  • Câncer vulvar.

A paciente deve ser orientada sobre a possibilidade de recorrências. Em até um terço dos casos, as recorrências são mais frequentes.

A cura da ulceração genital aguda ocorre habitualmente em 2-6, sem cicatrizes. Paciente e familiares devem receber esclarecimentos quanto à natureza da doença, especialmente que não é infecciosa. Até o desaparecimento, os objetivos do tratamento são a prevenção de infecção secundária e o controle da dor.

Orientações sobre cuidados gerais são importantes. Evitar uso de sabonetes. Banhos de imersão suaves. Hidratar a região com óleo mineral/coco ou Dexpantenol.

Para alívio da dor pode ser usado um anestésico tópico (Andolba ® spray, lidocaína gel ou pomada) e analgésicos orais. [cms-watermark]

Na presença de processo inflamatório intenso: corticoides tópicos ou orais são necessários por um prazo de 7 dias em média.

Em caso de sintomas sistêmicos ou marcadores inflamatórios elevados, pode ser recomendado o uso de antibiótico oral (Amoxicilina). [cms-watermark]

Autoria principal: Caroline Oliveira (Ginecologia. Especialista de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia. Doutora em Ciências Médicas pela UFF).

Revisão: Ênio Luis Damaso (Ginecologista e Obstetra, Professor Universitário com Doutorado em Ciências Médicas).

Bornstein J, Sideri M, Tatti S, et al. Nomenclature Committee of International Federation for Cervical Pathology and Colposcopy. 2011 terminology of the vulva of the International Federation for Cervical Pathology and Colposcopy. J Low Genit Tract Dis. 2012 Jul;16(3):290-5.

Brito MF, Furtado VL, Guiotti IF, Teixeira AO, Guiotti Neto M, Teixeira EB. Síndrome de Behçet ou úlcera de Lipschütz: desafio diagnóstico. Femina. 2021;49(3):187-92.

FEBRASGO. Coleção Febrasgo – Doenças do Trato Genital Inferior. Rio de Janeiro: GEN Guanabara Koogan; 2016.

Sadoghi B, Stary G, Wolf P, et al. Ulcus vulvae acutum Lipschütz: a systematic literature review and a diagnostic and therapeutic algorithm. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2020 Jul;34(7):1432-1439.

Schmitt TM, Devries J, Ohns MJ. Lipschutz Ulcers in an Adolescent After Sars-CoV2 Infection. J Pediatr Health Care. 2022 Sep 19:0891-5245(22)00246-2.

Vismara SA, Lava SAG, Kottanattu L, Simonetti GD, Zgraggen L, Clericetti CM. Lipschütz's acute vulvar ulcer: a systematic review. Eur J Pediatr. 2020 Oct;179(10):1559-1567.