Definição: Situações clínicas agudas decorrentes da falcemização das hemácias de pacientes diagnosticados com anemia falciforme. São consideradas urgências ou emergências clínicas que devem ser avaliadas e tratadas imediatamente.
As crises falcêmicas são decorrentes do processo de falcemização das hemácias, que ocorre quando são expostas a baixas tensões de oxigênio. As hemácias podem aderir ao endotélio e causar alterações inflamatórias e da produção do óxido nítrico. Essas alterações geram episódios de vaso-oclusão, levando a dano tecidual por isquemia e hipóxia.
Representação de crises falcêmicas
O diagnóstico de uma crise falcêmica é essencialmente clínico, havendo necessidade de exames laboratoriais e radiológicos para diagnóstico diferencial com outras alterações.
Exames laboratoriais de rotina: Hemograma com contagem de reticulócitos. Considerar solicitar função renal, eletrólitos e função hepática em quadros moderados a graves. Considerar tipagem sanguínea ABO e Rh, em casos potencialmente graves (hemotransfusão em potencial) .
Se dor abdominal intensa: Ultrassonografia abdominal.
Se suspeita de síndrome torácica aguda: Incluir hemocultura, cultura do escarro (se possível) e BAAR e gasometria arterial (se SaO 2 < 96%, PaO 2 < 75 mmHg ou decréscimo de 25% do valor basal - alta probabilidade de Síndrome Torácica Aguda [STA]).
A USG pulmonar pode detectar a síndrome torácica aguda em crianças com doença falciforme?
Se presença de manifestações neurológicas (diagnóstico diferencial entre AVE isquêmico e meningite): Tomografia computadorizada do crânio e/ou ressonância magnética do crânio; punção lombar com exame do liquor (celularidade, glicorraquia, proteinorraquia, cultura e bacterioscopia do liquor) deve ser realizada em todos os pacientes com manifestações neurológicas acompanhando febre e cefaleia, e em todos os menores de 1 ano com febre e/ou crises convulsivas.
Internação em CTI: Pacientes com insuficiência respiratória com necessidade de ventilação mecânica (invasiva ou não invasiva), instabilidade hemodinâmica, sinais neurológicos agudos e na suspeita de crise de sequestro esplênico (pelo risco de instabilidade hemodinâmica de evolução rápida).
Alta hospitalar: Pacientes podem receber alta com antibiótico oral se estiverem afebris por pelo menos 72 horas, sem toxemia e com nível de hemoglobina seguro.
| Analgesia | ||
| Droga | Dose | Frequência |
| Dipirona | 15-25 mg/kg/dose VO/IM/EV | 4/4 ou 6/6 horas |
| Paracetamol | 15 mg/kg/dose VO | 4/4 ou 6/6 horas |
| Diclofenaco | 2-3 mg/kg/dia VO | 8/8 horas |
| Ibuprofeno | 4-10 mg/kg/dose VO | 4/4 ou 6/6 horas |
| Adultos: 200-400 mg VO | ||
| Tenoxicam | 0,2-0,4 mg/kg VO/EV | 24/24 horas |
| Adultos: 10-20 mg VO/EV | ||
| Cetorolaco | 0,2 mg/kg/dose VO (máx.: 10 mg) | 4/4 ou 6/6 horas |
| Dose inicial: 0,6 mg/kg (máx.: 30 mg); depois 0,2-0,4 mg/kg/dose IM (máx.: 20 mg) | ||
| Cetoprofeno | 1-2 mg/kg/dose VO/IM (máx.: 4 mg/kg ou 200 mg/24 horas) | 6/6 ou 12/12 horas |
| Codeína (para ≥ 12 anos) | 0,5-1 mg/kg/dose VO/IM/SC (máx.: 60 mg) | 4/4 horas |
| Tramadol (evitar em <12 anos) | 1-2 mg/kg/dose VO/SC/EV | 4/4 ou 6/6 horas |
| Adultos: 50-100 mg VO/SC/EV (máx.: 400 mg/dia) | ||
| Morfina | Em ≤ 6 meses: 0,08-0,1 mg/kg/dose VO; 0,025-0,03 mg/kg/dose EV/SC | 4/4 ou 6/6 horas |
| Em > 6 meses, crianças e adolescentes com < 50 kg: 0,2-0,5 mg/kg/dose VO (máx.: 15-20 mg/dose); 0,05-0,2 mg/kg/dose EV/IM | ||
| Em > 6 meses, crianças e adolescentes com ≥ 50 kg: 15-20 mg VO; 2-5 mg EV/IM | ||
Se a dose pediátrica exceder a dose de adulto, considerar a menor dose de adulto e titular.
Retirada de analgésicos: Realizar retirada gradual das medicações analgésicas após 24 horas sem sintomas álgicos, da mais potente para a menos potente, uma a cada 24 horas.
Hidratação: Aumentar ingesta hídrica via oral e, em casos de internação hospitalar, realizar hidratação de manutenção. Não hiper-hidratar, pois os pacientes com anemia falciforme frequentemente
Oxigenioterapia: Para manter SpO 2 ≥ 94% ou PaO 2 > 70 mmHg.
Crise aplástica: Tratamento de suporte, hidratação, avaliar hemotransfusão e acompanhamento com hemograma com contagem de reticulócitos.
Broncodilatadores: Indicados na presença de sibilância: Salbutamol spray 4 a 10 jatos via inalação com espaçador e máscara a cada 20 minutos, 3 vezes, em um ciclo total de 60 minutos (tentativa de resgate da crise). Conduzir o caso como descrito no conteúdo específico de Asma em pediatria.
Como fazer: Quando indicado, realizar hemotransfusão de 10-15 mL/kg de concentrado de hemácias filtradas e fenotipadas para evitar aloimunização. Sempre solicitar hemoglobina pré e pós-transfusional. Manter Hb em torno de 10 g/dL para evitar hiperviscosidade.
Crise álgica não complicada: Indicada hemotransfusão somente nos casos com queda de hemoglobina > 20% em relação ao valor basal do paciente. Não tem benefício na resolução ou prevenção da crise álgica.
Síndrome torácica aguda: Realizar hemotransfusão (10-15 mL/kg) em casos de PaO 2 < 70 mmHg, queda de 25% do nível basal de PaO 2 da pessoa, insuficiência cardíaca congestiva ou insuficiência cardíaca direita aguda, pneumonia rapidamente progressiva, acentuada dispneia com taquipneia, envolvimento multilobar, queda da Hb ≥ 2 g/dL do valor basal. Não elevar a hemoglobina pós-transfusional para > 10 g/dL.
Crise de sequestro esplênico: Corrigir a hemoglobina até 9-10 g/dL com hemotransfusão. Cuidado para não haver aumento acentuado dos níveis de Hb com hiperviscosidade sanguínea, sempre observar o valor da hemoglobina após transfusão.
Acidente vascular encefálico: Realizar hemotransfusão assim que suspeitado o diagnóstico. É importante realizar punção lombar para excluir meningite. Se hemoglobina basal ≥ 9 g/dL, realizar transfusão de troca.
Pacientes com necessidade de hemotransfusão de rotina/hipertransfusão podem necessitar de tratamento com quelantes de ferro. Dentre as opções, encontram-se a Desferroxamina (uso parenteral) e a Deferiprona (uso oral acima de 10 anos de idade).
Acidente vascular encefálico: Após o evento agudo, o paciente deve ser mantido em regime de hipertransfusão para manter a HbS < 30%, por tempo indeterminado.
Realizar doppler transcraniano em todos os pacientes de idades entre 2 e 17 anos anualmente. Se a velocidade das artérias cerebrais do polígono de Willis estiver aumentada, deve-se incluir a criança em regime de hipertransfusão, pois há aumento do risco de ocorrência de AVE. Avaliar uso de hidroxiureia.
Crise de sequestro esplênico: Esplenectomia em crianças acima de 5 anos, após realizar vacinação adequada contra Streptococcus pneumoniae . Em crianças abaixo de 5 anos, realizar programa de hemotransfusão crônica ou hipertransfusão, mantendo HbS < 30%. Ensinar aos pais dos pacientes a palpar o baço de seus filhos e avaliar aumentos súbitos do órgão, procurando serviço de emergência.
Autoria principal: Dolores Silva (Pediatria pela UERJ).
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