Conteúdo copiado com sucesso!

Hipoglicemia Pediátrica

Voltar
    Conforme Whipple, em 1938, a hipoglicemia patológica é definida pela tríade (mais observada em escolares, adolescentes e adultos):
  • Baixa glicemia (< 55-60 mg/dL em crianças, este valor varia conforme a referência);
  • Acompanhada de sintomas simpáticos, adrenais ou neurológicos;
  • Melhora dos sintomas com administração de glicose.

Os sintomas em lactentes e pré-escolares podem ser mais inespecíficos, tais como tremor, irritabilidade, hipotonia, hipotermia, letargia, cianose, crises convulsivas e apneia. Por vezes, os lactentes podem não demonstrar sintomas até que a hipoglicemia se agrave e se manifeste como crise convulsiva.

Atenção! Para mais informações sobre a abordagem e o tratamento de hipoglicemia neonatal, acesse Hipoglicemia Neonatal.

Acontece quando há concentração de glicose sérica menor que 50 mg/dL. Entretanto, não se sabe exatamente qual nível de glicose pode começar a causar dano cerebral em crianças, por isso, valores menores que 55-60 mg/dL devem ser considerados se a criança apresentar sintomas associados.

Assim, há uma tendência a considerar intervenção em níveis mais elevados do que antigamente, a fim de tratar um grupo maior, diminuindo as chances de algum paciente ficar sem tratamento. [cms-watermark]

    Para manutenção de adequada glicemia, são necessários:
  • Sistema endócrino funcionante;
  • Adequado funcionamento dos processos de glicogenólise;
  • Gliconeogênese.

A hipoglicemia ocorre quando há falha em uma ou várias das interações complexas que geralmente garantem a homeostasia da glicose no período de alimentação e jejum.

Anamnese

As manifestações clínicas podem ser relacionadas à ativação do sistema nervoso autônomo, com liberação de epinefrina ou associadas à glicopenia cerebral. Pode ser assintomática, principalmente em pacientes com distúrbios do metabolismo do glicogênio, uma vez que essas crianças tendem a tolerar mais baixas glicêmicas.

    Estão relacionadas à ativação do sistema nervoso autônomo com liberação de epinefrina, ocorrendo precocemente com glicemia < 55-60 mg/dL:
  • Ansiedade;
  • Palpitação;
  • Taquipneia;
  • Perspiração;
  • Palidez;
  • Tremor;
  • Fraqueza;
  • Fome;
  • Náusea;
  • Vômito;
  • Angina (sem alteração de coronárias).
    Estão associadas à glicopenia cerebral, com sintomas tardios e glicemia < 50 mg/dL:
  • Cefaleia;
  • Confusão mental;
  • Perturbações visuais (queda da acuidade visual, diplopia);
  • Alterações orgânicas da personalidade;
  • Incapacidade de concentração;
  • Disartria;
  • Olhar parado;
  • Parestesias;
  • Tontura;
  • Amnésia;
  • Ataxia;
  • Incoordenação;
  • Sonolência;
  • Letargia;
  • Convulsões;
  • Coma;
  • Acidente vascular encefálico;
  • Afasia;
  • Hemiplegia;
  • Postura descerebrada ou decorticada.

O sistema nervoso autônomo e os hormônios atuam de forma a intensificar a produção de glicose, havendo modulação enzimática da glicogenólise e da gliconeogênese, enquanto limitam a utilização periférica de glicose.

A hipoglicemia pode levar ao comprometimento permanente do crescimento e da função cerebral, tendo como principais sequelas a atividade convulsiva recorrente e o retardo mental.

    Na anamnese, atentar para:
  • Qual é a idade atual?;
  • Faz uso regular de medicações?;
  • Tem algum doença de base?;
  • É diabético?;
  • História atual:
    • Quais sintomas o paciente apresentou?;
    • Quando foi a última refeição? O que comeu e quanto? Observação! É revoltante, mas muitas pessoas ainda evoluem com hipoglicemia por falta de ter o que comer. É necessário perguntar de forma discreta e em ambiente privado, porque, muitas vezes, as pessoas ficam constrangidas de dizer que não têm o que comer;
    • Apresenta diarreia? Vômitos? Febre?;
    • É o primeiro episódio? Se não, em que idade começou a apresentar episódios de hipoglicemia?;
    • Há alterações de comportamento alimentar (aversões ou intolerâncias a alimentos específicos)?;
    • Ocorre após ingestão de algum alimento específico (fruta, açúcar, leite, alimentos ricos em proteínas)?;
    • Consumiu álcool ou drogas?;
  • História patológica pregressa: Hipoglicemia neonatal, icterícia e/ou evolução ponderal;
  • História familiar: Outros lactentes que tiveram hipoglicemia, mortes inexplicadas de lactentes ou de diabetes mellitus .

Exame Físico

    Atentar para: [cms-watermark]
  • Um paciente com hipoglicemia, a princípio, precisa ser encarado como um paciente potencialmente grave, então deve-se realizar a avaliação sistemática verificando o ABCDE (vias a éreas, b oa ventilação, c irculação, d éficit neurológico e e xposição), identificando problemas e intervindo; [cms-watermark]
  • Depois de estabilizá-lo, verificar se existem alterações no exame físico que podem levantar suspeita de algumas doenças:
    • Hepatomegalia: D oença de acúmulo de glicogênio ou defeito na gliconeogênese;
    • Defeitos da linha média (ex.: único incisivo central, fenda palatina ou hérnia umbilical) e micropênis ou criptorquidia: Hipopituitarismo ou deficiência de hormônio de crescimento;
    • Hiperventilação: Acidose metabólica secundária a erro inato do metabolismo ou ingestão de alguma substância; [cms-watermark]
    • Hiperpigmentação: Insuficiência suprarrenal; [cms-watermark]
    • Hemi-hipertrofia, defeitos de parede abdominal e macroglossia: Síndrome de Beckwith-Wiedemann;
    • Avaliação de peso e altura/comprimento, com a correta aferição gráfica para sexo e idade. Baixa estatura ou crescimento linear deficiente podem indicar deficiência de GH ou um distúrbio de armazenamento de glicogênio. A alta estatura está associada a uma síndrome de supercrescimento, como síndrome de Beckwith-Wiedemann ou síndrome de Sotos.

Imediatamente, fazer glicemia capilar periférica (hemoglicoteste [HGT]). Se não estiver disponível, faça o teste terapêutico tratando a hipoglicemia. Faça anamnese, exame físico e, se possível, complemente com exames laboratoriais. [cms-watermark]

A prioridade diante de hipoglicemia é tratá-la. A investigação diagnóstica deve ocorrer paralelamente, mas a prioridade é estabilizar o paciente.

    Exames laboratoriais para auxiliar no diagnóstico dos tipos de hipoglicemia conforme classificação a seguir:
  • Diante de HGT < 55-60 mg/dL, é importante dosar glicemia plasmática, mas a prioridade é tratar o paciente que estiver sintomático;
  • Dosar lactato sanguíneo;
  • Urina tipo 1 ou EAS para avaliar se há presença de corpos cetônicos;
  • Avaliar necessidade de outros exames conforme suspeita clínica.

Sem Acidemia

    1. Mediado por insulina:
  • Hiperinsulinismo;
  • Hipoglicemia artificial (por uso de insulina);
  • Insulinoma;
  • Ingestão de hipoglicemiante oral.

2. Defeito na oxidação de ácidos graxos.

Com Acidemia

    1. Com aumento de cetonas – hipoglicemia cetótica:
  • Por deficiência de cortisol;
  • Idiopática;
  • Por deficiência de hormônio de crescimento (GH);
  • Por doença de estoque de glicogênio.
    2. Com aumento de lactato – desordem de gliconeogênese:
  • Doença de estoque de glicogênio;
  • Deficiência de piruvato carboxilase;
  • Deficiência de frutose-1,6-bifosfatase.

Outras Situações

    Doença hepática:
  • Síndrome de Reye;
  • Hepatite;
  • Cirrose e/ou hepatoma.
    Distúrbios sistêmicos:
  • Sepse;
  • Carcinoma;
  • Sarcoma;
  • Insuficiência cardíaca;
  • Desnutrição;
  • Má absorção;
  • Anticorpos contra receptores de insulina;
  • Anticorpos anti-insulina;
  • Hiperviscosidade neonatal;
  • Insuficiência renal;
  • Diarreia;
  • Queimaduras;
  • Choque;
  • Pós-operatório;
  • Pseudo-hipoglicemia (leucocitose, policitemia);
  • Insulinoterapia excessiva de DM insulinodependente;
  • Fundoplicatura de Nissen (síndrome de dumping );
  • Malária falciparum .
    Outros:
  • Ingestão de medicamentos como agentes hipoglicemiantes, etanol, betabloqueadores ou salicilatos.

É extremamente importante tratar a hipoglicemia o mais precoce possível, visto que a hipoglicemia sintomática prolongada, recorrente e grave está associada a sequelas neurológicas.

Hipoglicemia Pediátrica em Paciente Consciente

    Administrar 15 g para pacientes no geral (ou 0,2 g/kg para lactentes) de carboidratos simples (ação rápida):
  • 1 colher de sopa de açúcar dissolvida em água;
  • 1 copo de suco de laranja integral;
  • 1 tubo de gel de glicose ou para > 1 ano também pode-se usar 1 colher de sopa de mel ou 200 mL (um copo) de refrigerante comum (não zero/ diet ). [cms-watermark]

Repetir glicemia em 15 minutos após administrar os 15 g de carboidrato simples. Se continuar baixa, ofertar mais 15 g de carboidrato. Observação! A dose de 15 g também pode ser usada para adultos.

Hipoglicemia em Paciente com Alteração do Nível de Consciência

  • Administrar 2-4 mL/kg EV de glicose a 25% em bolus (0,5-1 g/kg) diluído com mesmo volume de SF 0,9%. Medir glicemia após 15 minutos;
  • Depois, manter com hidratação venosa com taxa de infusão de glicose (TIG) em lactentes de 5-6 mg/kg/minuto EV e nos maiores de 2 anos de idade com TIG de 2-3 mg/kg/minuto EV. Alvo inicial de glicemia de pelo menos 70 mg/dL. Aumentar a TIG de 0,5-1 mg/kg/minuto a cada 15 minutos, se necessário, para atingir alvo de glicemia se o HGT ainda estiver baixo. Depois de atingir alvo de HGT, espaçar HGT para 1/1 hora e, após, avaliar espaçar para 3/3 horas;
  • Se a criança não tiver acesso venoso e estiver com nível de consciência rebaixado, administrar Glucagon IM na dose de 0,5 mg (se a criança tiver < 20 kg de peso) ou 1 mg (criança com peso a partir de 20 kg). Observação ! O Glucagon raramente está disponível nos hospitais brasileiros.

Dica prática: Por vezes, é preciso prestar primeiros socorros para pacientes fora do hospital. Na suspeita de hipoglicemia e se o paciente estiver com nível de consciência rebaixado, com pulso e respirando, deve-se ligar para Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU), número 192; também pode-se calçar luvas e esfregar o equivalente a uma colher de mel ou uma colher de açúcar na gengiva do paciente – internamente – na bochecha. É importante estar de luvas, principalmente, se for esfregar o açúcar na gengiva, pois sangrará um pouco. Não colocar o dedo entre os dentes do paciente, pois ele poderá morder e lesionar seu dedo.

    As complicações mais graves da hipoglicemia são:
  • Coma;
  • Acidente vascular encefálico;
  • Afasia;
  • Hemiplegia;
  • Postura descerebrada ou decorticada;
  • Atraso no desenvolvimento cognitivo (se houver hipoglicemia persistente ou episódios recorrentes);
  • Encefalopatia crônica não progressiva.
    Autoria principal:
  • Ana Carolina Pomodoro (Pediatria pela UFF e SBP);
  • Renata Carneiro da Cruz (Pediatria pela UERJ e SBP).

Revisão: Gabriela Guimarães Moreira Balbi (Pediatria pela UFPR e Reumatologia Infantil pela UNIFESP).

Kliegman R, Stanton BF, Geme JS, et al. Nelson - Tratado de Pediatria. 20 ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2017.

Cloherty JP. Manual de neonatologia. 7 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan 2015.

Committee on Fetus and Newborn. Postnatal glucose homeostasis in late-preterm and term infants. Pediatrics. 2010; 127(3):575-9.

Gandhi K. Approach to hypoglycemia in infants and children. Transl Pediatr. 2017; 6(4):408-20.

Piva JP, Garcia PCR. Medicina intensiva em pediatria. 2 ed. Rio de Janeiro: Revinter; 2014.

Schvartsman C, Reis AG, Farhat SCL. Pronto-socorro. São Paulo: Instituto da Criança HC-FMUSP; 2010.

Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Hipoglicemia. [Internet]. Sociedade Brasileira de Diabetes. São Paulo, SP: Sociedade Brasileira de Diabetes. (Acesso em 23 de abr. 2025).

Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP). Hipoglicemia em idade pediátrica: protocolo de avaliação diagnóstica e orientação terapêutica inicial. [Internet]. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Pediatria. (Acesso em 23 de abr. 2025).

Thompson-Branch A, Havranek, T. Neonatal hypoglycemia. Pediatrics Rev. 2017; 38(4):147-57.

Thornton PS, Stanley CA, de Leon DD, et al. Recommendations from the pediatric endocrine society for evaluation and management of persistent hypoglycemia in neonates, infants, and children. J Pediatr. 2015; 167(2):238-45.

UpDate. Pediatric and Neonatal Lexi-Drugs. 2024: Wolters Kluwer. [Internet]. (Acesso em 23 de abr. 2024).

Kliegman R, St. Geme JW. Nelson Textbook of Pediatrics. 21st ed. Philadelphia: Elsevier; 2020.

Tratado de Pediatria: Sociedade Brasileira de Pediatria. 5 ed. Barueri: Manole; 2022.